quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Poeta Brasileiro: "aguada"

Iguala
iguala
na cartela
desta aquarela
todas as lívidas cores

e vai dizer 
pra minh'alma
não se dissolver 
por ela

iguana
iguana 
impassível sob o Sol matinal
eis o que eu queria ser

mas infelizmente
sou um colecionador
de sentimentos tácitos
um recamo de dores





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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

vontade de potência

Uma vida
tem que
ser domada

e que não seja
o domador
o seu ou
o meu deus
ou nosso rei

uma vida
tem que
ser domada
por ela mesma





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o sillêncio semeado


O sofrimento
não pode ser filtrado
pela riqueza

ele é um líquido
que penetra
nas frestas mais ínfimas

o sofrimento às vezes é um gás
e penetra nos pulmões
e no sangue

a respiração arbitrária
facilita a sua entrada

mas por que ocorre 
a respiração arbitrária (?)
por distração
é a resposta

somente um ser
absolutamente solitário
pode sentir que está
respirando

quem se vê no meio
da multidão normalmente
se distrai e
não respira
apenas bombeia o ar sujo
de qualquer jeito

o homem solitário
ouve as batidas de seu próprio coração
e sente o ar puro
penetrando nos pulmões

a vida nos presenteia
com a solidão
mas fugimos dela
como o gato foge da água

a solidão é o filtro
da respiração
ela deixa passar
o ar puro
mas o sofrimento
fica agarrado na malha

temos a tendência de 
achar o contrário
achar que a solidão
nos traz o sofrimento
mas ela só traz a paz  a compreensão
o silêncio e a compaixão

exceto quando há luta interna

o desespero é fruto
da não aceitação da solidão
neste caso o sofrimento
se duplicará porque
nós em estado de pânico 
tenderemos a fugir da solidão
em direção à agitação mental
ao regaço do próprio sofrimento
(e um tal desequilíbrio 
é demais para o corpo)

novamente a solidão virá
pois estaremos enfermos
e através da morte
a solidão nos acolhe um dia
leva-nos daqui

a alma do açougueiro avisado
deve voltar a este mundo
encarnada num boi ou porco

a alma daquele que humilhou
voltará para servir
e aprender a humildade

a alma sempre volta
para acertar as contas
e terá toda a eternidade
para isto

a alma de quem repeliu
o silêncio voltará solitária
e alma que foi solitária
nascerá entre muitos
para distribuir silêncio

no entanto será livre
livre para ir se abastecer
na fonte do seu silêncio interior
livre para se distrair

a alma que se distrai
comete outra vez o erro da
respiração arbitrária
e deverá provar novamente
o sofrimento

a alma que se mantém no silêncio
mormente no meio dos homens
será cada vez mais livre
e só voltará a este
mundo se for de seu
desejo ajudar aos que
vivem e sofrem na distração




.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

PARTIDA E CHEGADA


Já é hora
de pintar melancias partidas
o bonde do destino 
é elétrico 
a frenagem é
do tipo "talvez"
como no tempo
(antigo)

a saudade que me assola
não terá piedade
do solo me lancei ao mar
e a mezena se partiu 


dissuadindo
a tristeza
tapeando a morte
com tapas de amizade
mesmo sem prerrogativas
eu vou

passo
ao capítulo seguinte
sem revisar ou entender
a textura da pele do oceano

bate o vento na vela
desenhada (ossos)
aguenta o mastro
eu vou 

quem me vê pelas costas
vê o mastro se afundando
quem no mundo novo
me espera(amar)
o vê se emergindo





primitivo

Meu tipo de morte
é baseado na água
que desvia-se de
qualquer coisa que queira aparecer

há muitas grotas
que acolhem águas claras
há também uma postura
de simplicidade que 
mantém-me em paz

a água está sempre buscando
os lugares onde
ninguém quer estar

a luta das pessoas
é pelos cumes
pela glória

e para isso
cronistas contam
histórias mentirosas
para isso as igrejas
mostram suas garras
por detrás dos mantos

para isso
roubam
mentem escravizam
humilham
maltratam

e eu confesso
que prefiro a morte
do que viver assim

países que tanto roubaram
mataram e conquistaram pelo
enxofre da pólvora
hoje tão ricos
erguem muralhas

se este mundo
fosse lugar de JUSTIÇA
tudo seria diferente
e não haveria fome
nem miséria

quero estar fora de tudo isto
quero ser como a água
em fuga para os recônditos
sombrios

o meu tipo de morte
é viver com o mínimo
posso fazer meu próprio caneco de argila

posso plantar minhas verduras e frutas
posso recolher água do poço
posso viver sem me envolver

pois a glória
que todos
desejam 
eu não quero

prefiro o olhar sincero
de amizade
da minha pequena cadela

prefiro a companhia calma
dos meus gatos
e a única música que desejo ouvir
é o canto dos pássaros

e quando falo de um
amor utópico eu quase desmaio de dúvidas
não me interessa mais os 
desabafos sexuais
dos que vivem no inferno

do amor eu só quero a pureza
do olhar
a paz que me acalma
e uma mente simples
capaz de compreender 
este meu modo primitivo
de viver









.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

danada

Posso desafiar
a morte
agora

e ela não me sobrevém
como se tivesse vontade própria

não quero morte lenta
gosto de morte súbita
veloz 

e se não me mato agora
é porque a morte
não concedeu-me
o livre arbítrio
na forma de coragem 



.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

metade

A vela
o corpo
a alma a chama

chama porque
a ama
a poesia

metade da avelã
tece com a púrpura
a fruta da mulher

nunca traiu José
atraiu a chama
do espírito
que a velou

o anjo revelou em segundos
"salve ó cheia de graça"
ave virgem
o véu do templo teceu
sua pureza nunca vã

a chama a concebeu
o corpo apenas
recebeu
(a luz do mundo)





o grande segredo

Há um segredo
guardado
a sete (vezes sete) 
chaves

é a gênese
da humanidade

nós os humanos
por piores que sejamos
já estamos perdoados
apesar de nossas barbaridades

porque em verdade somos
os sobreviventes
do que deveria ter sido
um "ABORTO"

mas enquanto bebês
conseguimos
dar a volta por cima
sozinhos
lambendo lamas
e nossas próprias fezes
comendo vermes
sem pai
sem mãe
e sem ninguém

e depois comemos o tutano
dos ossos descarnados
das savanas
e aprendemos com
as nossas cabeçadas

tudo isso constitui
parte do segredo

e quem nos desprezou
se envergonha porque
apesar de todo sofrimento
de tudo que temos passado
e que ainda passamos
demostramos amor
por quem
nos rechaçou

cuja própria
consciência o julga
e o atormenta




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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Rosa retraída


Rosas não são
tufos corados com 
simples pigmentos 

rosas são
esponjas que
absorveram
o sangue dos
ferimentos

as rosas vermelhas
são as que
mais me fascinam

recolheram teu
sangue suor e lágrimas
em tua fase
de tormentos

hoje revertidos
em amor sincero
oriundo da impudicícia
dos cúmplices em coito
ou do olhar que suga a
sustança do mais puro sentimento

cada pétala
cada pedra da
catedral pontiaguda
cá me fere nesta estação

e quanto mais ferido
mais eu desejo 
me ver livre na ponta desta roca
no sabor da estricnina
no centro dos teus lábios
na grosélha da língua
do improvável beijo



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.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

inversamente

Escolhi colar
depois copiar 
já que este amor 
não o posso deletar




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ar da graça

Podia sonhar
com um olhar
que cai da
janela

podia irritar-se
sofrer
cuidar
ou cozinhar
naquele andar

e tudo que estilhaçava
era somente
o sonho do porão

e mais medonho
do que o sonho
era o tédio
de não poder amar

e como não cria
se afastava
enquanto sofria
cuidava
e cozinhava

porém
com um dó dos
esfaimados
carneava sucintamente
uma poesia

anêmica
destituída de sol
solfejada
em laringe fria




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é...

Nunca confunda
os dois hemisférios do
seu cérebro
co'a bunda.




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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

rumores de guerra


Um nobre amigo
me trouxe o carvão
que absorve as impurezas
da vingança

pois o inimigo
era insano e atacou
isso nos instigou
para a guerra

em dado momento
eu fora expulso de
meu quarto de navio
por um sargento
violento

obedeci
pois vi no jogo de xadrez
o seu suicídio moral 
com o objetivo da ação

e aquele que me expulsou
logo quase se matou ao pilotar um "caça"
que caiu em chamas no mar

o navio também afundou
nadamos os tripulantes
procurando por terra firme

eu como sou um exímio nadador
nadei mais rápido que dezenas de soldados

(tubarões devoraram os mais lentos)




.

"never give up" (nunca desista)


Deram-me na saída
do inferno um envelope com dois belos seixos
um era preto
e o outro branco
(algum anjo anônimo deixou-me de presente) 

Em verdade eu nunca fui um sujeito feliz
durante toda a minha vida
vida de grande sofrimento
eu nunca havia
parado pra pensar
na intensidade do amor

por onde eu andava
só via ganância e corrupção

colocavam alimentos
envenenados ou
transgênicos nas feiras
e não estavam nem aí para 
a saúde do próximo

isto era normal

descri de Deus porque com raras exceções 
aqueles
que falavam de Deus
eram hipócritas
canastrões 

e eu continuava com a vida
pensando sempre
em afastar a morte
deixá-la no fundo do corredor

mas o meu sofrimento
tornou-se insuportável
quando a saúde ameaçou
me abandonar

eu que já fora abandonado
por todos
absolutamente todos
os homens

somente os animais
queriam se aproximar
mas eu não os queria
como eu iria deles cuidar
se mal podia me escudar

e de fato
tudo visava
a minha aniquilação

até a velhice
de mim se aproximava
como um cão vagabundo

então finalmente
eles venceram
fui parar num quarto de hospital
onde todas as paredes
eram brancas
os lençóis e toalhas
as camas
as vestes das enfermeiras
que esbanjavam saúde
a luz do teto
o teto
tudo alvo

fiquei tanto tempo vendo
cenas de sofrimento
ouvindo gemidos
constatando chegadas e partidas
que já não mais sabia 
o que era noite
ou o que era dia

um dia recebi a visita
de uma bela mulher
seus olhos eram
incrivelmente belos e brilhantes
olhos que pareciam sorrir
junto com a belíssima boca



eu gostava do brilho de seus dentes
mas também amava
seus lábios fechados

eu sabia
que aquele era
o seu ofício
e que trataria a todos
os enfermos 
com a mesma compaixão

sua roupa era preta e branca
deduzi que talvez 
fosse uma religiosa

mas eu gostava de me iludir
achando que seu olhar
se demorava mais
em mim do que 
nos outros

e quando ela se ia
dava vontade de morrer
mas ficava a esperança

quando ela voltaria(?)
quando(?)

e quando ela voltava
eu não sabia o que fazer
eu devia estar com horrível
aparência

mas ela parecia não
se importar com nada
sorria e me olhava
com total profundidade

minha alma estava
entregue à sua benevolência
eu na vida não tinha mais ninguém

a presença daquela mulher
uma vez ao dia
era tudo para mim

falar de sua beleza
eu nem posso
não sou poeta

seus cabelos
sua pele virgem
tão lisa e macia

um dia seus
dedos mergulharam-se
carinhosamente na minha cabeleira grisalha

fiquei extático
senti-me no céu
eu estava certo
ela só fez isto comigo
com mais ninguém

ela me escolhera
entre muitos
minha sorte estava
mudando e 
eu comecei
a cuidar de mim
antes de sua chegada

já conseguia me barbear
cuidar de meus dentes
e me demorava no banho

meu dever era estar impecável
para ela
seu nome tão lindo
tinha tudo a ver com ela
e eu o repetia no pensamento
como se fosse um mantra

mas então o
médico disse
que eu tinha melhorado
e que logo poderia
ir para casa

aquilo me estremeceu
casa(?)
casa bagunçada
empoeirada
fria
solitária (?)

e o pior de tudo
se eu fosse embora
perderia o meu amor secreto

não não
eu tinha que ficar
doente
eu fingiria
(por ela)

no entanto
algo terrível
aconteceu

a mulher não mais voltou
logo eu fui liberado
e decidi me cuidar

cuidar de mim com toda gana
eu seria quase um "Frank Medrano"
e assim ocorreu

agora eu tinha
saúde de sobra
e corria pelos parques
da metrópole diariamente

mas parava
sempre num banco
e ficava horas
olhando ou simplesmente 
sentindo nas mãos as
duas pedras

a preta significava
morte
sono repouso
meditação

a branca significava
vida
movimento
luta
ação

somente agora
eu entendera o
significado
agora a minha vida estava correta
eu estava de posse das duas pedras

um belo dia
enquanto meditava
vi uma mulher elegante
passar pelo parque

eu não tive dúvidas
era ela
sempre usando 
vestido preto e branco

mas ela não me
reconheceu
claro
eu havia mudado

e sempre passava
por ali aos domingos
no mesmo horário

um dia resolvi
colocar as duas 
pedras na minha frente
para meditar
a branca do lado direito

neste dia ela
parou
e olhou as duas pedras
pois fora ela que as deixou
com a recepcionista do hospital para mim
olhou-me nos olhos
por alguns segundos

vi que seus olhos começaram a brilhar
sem parar
até verterem lágrimas
só então ela me sorriu
(...)





......................